segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Análise do Fogo: Tchaikovsky: Concerto para Piano e Orquestra Nº 1

tudo existe desde sempre: convive connosco, mas só é verdadeiramente para nós quando nos acontece. perco noites inteiras a pensar no magma inumerável de coisas que conheço mas que ainda não conheço, porque só vão ser para mim quando me acontecerem. tudo ocupa a sua órbita até desorbitar em nós.
assim com este concerto, que na minha primeira fase de amor à música achava longo, pesado, cheio de interrupções pensativas, quando eu queria da música exclamações, irrupções, a subjugação de uma paixão.

até ao dia de Outubro de 2004 em que me aconteceu a versão de Vladimir Horowitz com o Arturo Toscanini. Em 1943, num evento para recolha de fundos para o esforço da segunda guerra mundial, pianista e o seu sogro maestro gravaram o caminho mais próximo entre esta música e o fogo.


não é fácil chegar aos lugares interiores como se faz com os físicos: como chegar a uma pedra, a um quarto, a uma igreja, a uma praia, e dizer, «foi aqui», o lugar físico a concretizar a ferida interior. como apontar estes lugares, estes «sítios sitiados» como lhes chamava Luiza Neto Jorge. aqui caí, aqui comecei a morrer, aqui o meu corpo conheceu o seu corpo. a dor não pode dizê-los, os braços são sempre partidos para os desenhar, e mesmo as palavras atingem o pleno da sua explosão. para essa cartografia não existe nada senão o silêncio. tudo o que suba as escadas do silêncio, sem ar, a subir os degraus que o corpo desiste - só consegue chegar. como as descobertas marítimas: é aqui, onde e o quê não se sabe dizer, porque não há palavras para o novo que existe primeiro por dentro.

esta encenação magnífica, teatral e tronitruante no início do primeiro andamento, como se se celebrasse alguma coisa. mas logo depois o caminho é para dentro, para uma análise de pensamentos e actos como se fossem melodias. esta música não é música: é a depuração interior de um homem. por isso só são grandes as versões em que os intérpretes tocam com uma dor em diante e em frente, uma dor que os faça ver para além dos acordes, e os inflame do conhecimento da dor.

o segundo andamento só é verdadeiro na primeira melodia, suavíssima, que Tchaikovsky logo corta com umas variações que preparam o andamento seguinte, umas escadas de escalas. tudo aqui, nessa primeira versão, fala a língua directa de quem não sabe o nome das coisas mas sabe que foram ali, naquele espaço interior. é por isso que acredito na vida para além da morte: para onde vão todas as zonas silenciosas que cada um viveu consigo, que nos fizeram rasgar e desdobrar, que nada pode transmitir? é porque abrimos espaços depois dos pulmões, depois dos dias, depois do próprio corpo.

no final, no terceiro andamento, o que se passa é o fogo mesmo. a orquestra crepita, o piano excede-se a si mesmo, queima-se na orquestra, na melodia, e renasce a cada instante para ir ainda mais longe dentro do longe. só pode haver o grande crescendo do final porque alguém amou demasiado a terra das suas melodias de frio, porque sabia o nome a cada continente de sangue.


Ninguém conhece este concerto sem ouvir Horowitz com Toscanini (RCA ou Naxos, aliás aqui acoplado com um Concerto Nº2 de Brahms de aprender a respirar).

Mas vale a pena ouvir Gilels com Reiner (RCA), mais técnico mas não isento de grandes emoções e descobertas, ou mesmo Gilels com Mravinsky (Russian Disc). Richter com Mravinsky é fulgurante em fogo lento: uma grande orquestra russa para a anatomia de um desastre anterior. Martha Argerich com Dutoit (DG) ou Kondrashin (Philips) é um exercício de rapidez. Mas acredito que só se saboreia verdadeiramente cada uma destas outras versões depois de se queimar com Horowitz.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

crónicas escritas em sede #4

o unicórnio

era uma noite longa, em que os dias também eram noite, porque tudo era escuro e misterioso, e se atravessava sem saber para onde.
sonha-se muito nestas travessias. talvez porque precisemos de ir buscar ao subconsciente água e chão.
num desses sonhos, eu atravessava uma paisagem clara, amarela, quente. havia um calor que se sentia na pele e que parecia subir. a cada passo eu sentia-me mais e mais protegido, por alguma coisa que estava no alto mas bem perto. as cores claras da paisagem, que me pareceram antes uma construção, eram afinal patas, enormes e redondas, e por cima não um tecto mas o corpo de um cavalo, enorme e imóvel, sábio de estátua.
avancei por debaixo desta construção real, carne de sonho. percebi-lhe os contornos gigantescos, mas a cada golpe de realidade o cavalo me parecia mais próximo e reconfortante: cada parte dele construía-me mais seguro na alma.
quando lhe procuro o rosto, redondo e largo como nas estátuas, não lhe vejo os olhos, mas ele sabe que eu estou a olhá-lo; e movendo ligeiramente a cabeça das nuvens, consigo ver que é um unicórnio, o seu corno azulado a começar na testa e a perder-se de vista através das nuvens.
foi o sonho mais bonito que alguma vez tive na vida. não pelas imagens, mas pelos efeitos. a partir daí foi claro para mim que vamos ao sonho beber água.

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS: MILHAUD

MILHAUD


Um disco numa tarde de 1997. Eu reinventava-me, deixava uma vida para nascer outra. Aquela sensação de o espaço se inventar a cada gesto quando tudo recomeça. E aquele disco: Milhaud, da série «Composers in Person». Uma mistura de jazz com ritmos brasileiros, os ritmos medievais e regionais provençais numa orquestra modernista de jazz band. A invenção permanente.


Darius Milhaud nasceu em 1892 em Marselha. Foi para o Brasil como secretário de Paul Claudel, depois Suíça, depois Estados Unidos em prelúdio e fuga do nazismo. É um dos segredos mais bem guardados da música do século XX. Compôs infinitamente, porque dizia querer ter sempre uma coisa nova para cada dia.

Não ouço outra coisa: há um manancial de sinfonias, concertos para piano, música para teatro, quartetos de cordas. Mas ninguém fica indiferente a Le Boeuf sur le Toit, grande divertimento politonal com Brasil e saxofones a levantarem a orquestra. Há uma excelente versão com o compositor a dirigir (na dita colecção da EMI, «Composers in Person»), e outra, quase orgíaca, de Leonard Bernstein, também na EMI (colecção Great Recordings).

Neste momento o "Scaramouche", para dois pianos, traz-me tudo desta música. Da meditação sobreposta com emoções, ao andamento fulgurante do último andamento, Brazileira, em que o mundo parece começar e querer dançar uma manhã que acorde todas as noites. Quem quiser ouvir uma versão só disponível no Youtube, os grandes Martha Argerich e Evgeny Kissin tocam como se fossem morrer amanhã: http://www.youtube.com/watch?v=TLHrZ_tZ6Yk&feature=related Para começar Milhaud pela "Brazileira", terceiro andamento desta peça, comece a ouvir aos 6:15

Mas também "La Création du Monde", ou "Le Carnaval d' Aix" para piano e orquestra: é uma loucura de recriar tão evidente em música que só nos perguntamos: porque é tão pouco gravado, porque é tão difícil ter os seus discos?

Milhaud é a banda sonora da alma num dia de Outubro que é Agosto, a banda sonora do verão do meu inverno.


Alguns discos para começar


Milhaud - Composers in Person - EMI
La Création du Monde, Scaramouche, Saudades do Brasil, Le Boeuf sur le Toit
várias orquestras e intérpretes, sempre com Darius Milhaud


Milhaud: Le Boeuf sur le Toit, Saudades do Brasil
Orquesta Nacional de França - Leonard Bernstein
EMI Great Recordings of the XX Century


Milhaud: Le Boeuf sur le Toit, Le Carnaval d'Aix, Concertos 1 e 4 para Piano e Orquestra, Concerto para Harpa
vários solistas - Orquestra de Lyon, Kent Nagano
Erato Double

crónicas escritas em sede #3

a vida chega sem avisar

mais frequentemente do que a morte. sinto mesmo com o entendimento que as chegadas da vida são a educação para a morte.
o cenário de esperar: o ruído lá fora, da chegada, e a janela de esperar ocupa o espaço do coração. mas isso é o habitual, a rotina das chegadas. eu falo de quando a vida chega imprevista e em chamas, um incêndio conjuntivo. aí o ruído lá fora, a janela, não é isso nós ou eu - nós ou eu somos a chegada.
as grandes fases da vida são feitas deste estilhaço. de quando a infância acaba porque acabou o esperar. da adolescência quando não esperar se torna fazer. da adultez quando a vida chegar e desfazer é a sua própria essência.
pode arder um cigarro, podem arder as memórias: o coração é a única coisa inteira do corpo, porque se parte no invisível.

sábado, 3 de Outubro de 2009

crónicas escritas em sede #2

O CÉU DO CHÃO

desde pequeno que achava que havia um céu para cada chão. como nas casas, quando o tecto é sempre o tecto para uma sala, e só é tecto para essa sala.
o tecto ideal para o mar é o céu azul, porque até se o mar está escuro, o céu também se escurece. é uma relação perfeita em que um é os olhos do outro.
os mestres espirituais sublinham sempre que o nosso estado de espírito interior é o mais perfeito estado de espírito que temos - é nele que temos de encontrar a nossa perfeição. é o tecto que tem de desenhar o nosso chão, onde temos de pôr os pés do real, onde temos de inventar um corpo suficiente para os dias.
mas quando não conheço nem o céu nem o chão; quando, como se num sonho, tudo se reinventa à velocidade do coração: que chão, que tecto, que música de corpo sobreviver?

o coração com as raízes iluminadas

Ontem passei o dia na Quinta arrancando erva. Há pessoas que arrumam armários, outros que vão ao cinema, quando querem arrumar sua cabeça. Eu arranco ervas na quinta.
Quando aprendi Português, gostavava muito do poema de Alvaro de Campos que era: «Fui como ervas e não me arrancaram.»
O meu coração está quase sendo arrancado. Vocês não sentiram isso quando uma pessoa se apaixona? Só que quando as raízes sairem, até elas estão iluminadas. O amor chegou mais fundo. Mesmo quando uma árvore está morrendo, a linfa quer chegar a toda a planta.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

NÃO HÁ CENÁRIOS, HÁ OBRIGAÇÕES

No rescaldo das eleições, por mais tinta que corra, uma verdade é absoluta: o povo é sábio. Eu gostaria que o PS perdesse, ou tivesse ao menos uma maioria mais curta, mas o cenário é melhor do que parece à primeira vista. Ora vejamos:
1. É notório que o país quis que o PS continuasse a governar. Sete por cento de diferença é uma maioria assumida. Mas que quer que governe sem maioria absoluta e sendo capaz de dialogar. E vão logo dar esse presente ao primeiro-ministro menos dialogante desde João Franco. O PS embandeirou em arco e ainda não percebeu o que se passou. O primeiro-ministro sim: aquela cara era metade da cara das europeias, com metade da cara de satisfação. Agora teremos os dois rostos. E daqui é claro: ou o PS entende que está na sua mão saber gerar consensos, ou então pode bem esperar-lhe, daqui a dois anos, em novas eleições, uma maioria muito mais curta e consensos bem mais autofágicos.
2. É óbvio que a esquerda ganhou em toda a linha. E que o país quer ser governado à esquerda. E isso implica claramente que o PS encontre dentro de si próprio a esquerda que perdeu. Esta espécie de ente giga-joga que nos governou por quatro anos e meio já não serve, ora à pouca esquerda, ora à clara direita. E descobrir a esquerda dentro de si é uma coisa que o PS tentou com Ferro Rodrigues e não conseguiu.
3. Espanta-me e dói-me, a uma primeira impressão, a reconciliação da linha clara de esquerda dentro do PS com a linha de Sócrates: a ida de Alegre ao comício em Coimbra, a coligação Roseta-Costa. Se compreendo (como adepto entusiasta da arquitecta) a segunda, custa-me perceber a primeira. A menos que Alegre tenha uma estratégia clara, que nem sequer passa por equacionar presidenciais para já: dar o apoio ao PS, e levar com ele muitos dos "seus" votos, implica obrigar o PS-maioria curta a virar à esquerda. E se este é o caso, esperam-nos muitas discussões no parlamento e no interior do partido. Vai ser uma lavagem intestinal.
4. É também óbvio que Bloco e CDU devem manter os seus programas, e não ceder ao PS. Jerónimo tinha razão quando afirmava ontem que o PS fez isto a si mesmo. Mas quem neles votou também espera uma capacidade de gerar consensos que revela a maturidade da democracia.
5. A senhora: uma pena. Merecia mais uns pontos, não pela sua terrível agenda social, mas pela seriedade. Não se premeia a seriedade e a experiência neste país, e a votação comprova-o. O sucesso do CDS poderá implicar que o PSD se rearrume e se reencontre. Tem sido uma coligação de social-democratas (muito poucos) com populistas (crescente) e liberais-conservadores. Nestes dois anos tem de encontrar a sua matriz, ou corre o risco de ser substituído como partido de alternativa ao governo.
Ou não: se o jogo de dividir os votos tornar os partidos responsáveis, todos serão responsáveis por soluções de governo. E isso é uma excelente notícia.
6. O mapa político está interessante, e mais, está a caminho da adultez. Temos um parlamento habituado a não funcionar por maiorias absolutas, uma negação dele mesmo. Agora consensos, ainda para mais sem coligações, ensinarão muito. Vamos ver se os actores estão capazes. Não sei se os partidos perceberão que o país os quer ver a trabalhar decentemente, a assumir responsabilidades.
Agora já não há cenários, há obrigações.

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

crónicas escritas em sede #1


O escultor de água


compreendo hoje que quem esculpe a pedra o fez primeiro em água. já o tinha visto em Rodin, todas aquelas fadas líquidas, e corpos misturados que tiram água um do outro numa sede alta, ardente, de pedra em incêndio. vejo-o com a nitidez dos materiais, da pedra que precisa de conter e secar em si mesma a água, para guardar o que corre no que é imóvel.


assim também o amor procura o deserto antes de se dar, quer correr imóvel dentro do ser que deseja, para criar o amor do outro.


havia na minha infância uma montanha enorme, ao pé de minha casa. subia-a como se fosse o Kilimanjaro, e chegava lá acima esperando ver o topo daquele pequeno mundo. era a subida das pedras que afinal importava, porque a altura das coisas só se vê de dentro.

hoje passo pela montanha, um monte ridículo de pedras, mas agradeço-lhe a aprendizagem.


assim também o amor, de que importa só subir a sede.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

AS MINHAS PREVISÕES

Suspeito que as sondagens andam enganadas. Aqui vai a minha tese:

1. "Asfixia". Concorde-se ou não com a asfixia, creio que muitas pessoas dizem votar no PS, com as empresas de sondagens, por receio. Daí podemos tirar 5 a 6%, os mesmos que fazem a diferença com o resultado previsto nas europeias, e que perdeu. Acredito também que as pessoas estão cansadas do PS mas muito do cansaço não é ainda absoluto, e que muito deste voto é "não há melhor, deixa ver". Penso também que no dia das eleições, alguns dos que dizem votar PS ficarão em casa; foi sempre o partido menos beneficiado com a abstenção, reforçando-se com o facto de ser o partido no poder.

2. Conservadorismos. Votar PSD, com a postura conservadora de Ferreira Leite, pode ser para algumas pessoas dar de si próprios essa imagem. Mas os portugueses são mais conservadores do que parece - não querem é parecê-lo. Donde que acredito que muitos não terão dito que votam PSD para não quererem parecer conservadores. 2 a 3% a mais, será o que o PSD terá em relação às sondagens.

O mesmo se passa com a CDU e o CDS, que têm sempre mais votos que as sondagens - pelos mesmos motivos do ponto anterior. Mas acredito que o CDS vá chegar aos 10-11%, quatro a cinco por cento a mais que as sondagens. Ninguém gosta do tema principal da campanha de Portas ("a preguiça" do rendimento mínimo) e tem receio em indicá-lo nas preferências das sondagens [O tema é péssimo e devia ter sido trabalhado de outro modo; acredito que pedir a quem tem rendimento de inserção que faça pequenos trabalhos para o Estado, tal e qual como aconteceu no "New Deal" de Roosevelt, seria útil para todos. Mas sou absolutamente contra este argumento que parte a sociedade a meio e define uma visão da sociedade que excluo por completo].

3. Simpatia. Votar Bloco está na moda. Votei Bloco desde o primeiro dia, e só este ano deixei de votar. Gosto da forma como fizeram oposição e nunca deixei de me sentir justificado no meu voto. Mas está na moda porque é um voto fácil, feliz, mas sem perspectivas de se construir nada. É uma crítica que influencia, mas não faz. E isso tem os seus espaços e os seus tempos. O Bloco vai ter o seu melhor resultado de sempre, mesmo para o futuro. Nestas eleições vai começar o seu declínio - pronunciado se fôr para o Governo e deixar a CDU sozinha na oposição à esquerda.

Acredito que o único resultado que bate certo nas sondagens é o do Bloco.


Assim sendo, cá vão as minhas previsões.

PS e PSD empatados, com 32-33%, o PSD com mais 1 ou 2 deputados porque concentra melhor os votos geograficamente

Bloco com 11-12%

CDS com 10-11%

CDU com 8-9%

MEP com 1,5-2% e elege em Lisboa


Fico a aguardar um prémio de vidente, ou nunca mais me deito a estas previsões (!).

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

CRÓNICA DE UM PAÍS PARTIDO

Eu vivo num dos países mais antigos da Europa. Um país que teve de conquistar o seu espaço geográfico durante duzentos anos, e procurou outros pelo mar durante outras centenas de anos. Que viveu numa ditadura durante dezenas de anos, e fez progressos acelerados durante trinta. Um país com uma das maiores literaturas do mundo, e uma das paisagens mais ricas e contrastantes.

Mas eu vivo num dos países mais perdidos do mundo. Um país que tem um Presidente e um Governo que se suspeitam, que tem um parlamento que não funciona - e por isso precisa das maiorias absolutas como uma negação que o legitima; que tem Governos que vivem contra a cultura , e chegam antes das eleições a pedir desculpa, não sabendo que é ao próprio povo a quem essa ausência de trabalho cultural faz falta a cada segundo. Um país que tem o complexo de se achar no primeiro mundo, mas vive com as regras do terceiro. Um país onde a democracia é barulho, e um obstáculo para os poderosos chegarem a monopólios. Um país que não funciona, porque não sabe quem é. E porque quem o dirige só se ocupa em desfazê-lo para os seus fins. Portugal é o velho que estava no lar, a quem a família levou para casa para ficar com o dinheiro da reforma; é o país habituado à Índia e ao Brasil, querendo ter sem fazer; é um rectângulo no espaço, inchado de expectativas.



Nestes quatro anos e meio, o país partiu-se: suspeitas entre os órgãos de soberania, que nem em pleno prec chegaram a este ponto; desigualdades e ódios sociais entre quem recebe rendimentos, quem trabalha explorado, quem explora os outros; uma oligarquia de empresas apoiada pelo Governo, programada para gerir os seus interesses no país para as próximas décadas; subsídios para uma agricultura definhante que não são utilizados; e Conventos de Mafra, dezenas deles, em terceiras travessias do Tejo, TGVs, auto-estradas gémeas, trigémias, pentagémeas, computadores para todos os meninos que nunca lerão um Soneto de Camões, Aeroportos. Um país perfeito para pista de aterragem, onde não há nada senão boas estruturas para sermos alugados, emprestados, comprados. Um país partido, que passou quatro anos a difamar a classe que constrói o país, os professores, obrigados ainda para mais a serem co-pais por ordem dos reais e do Estado; um país partido, com um governo com licenciaturas falsas ou doutoramentos duvidosos; um país-tecnologicozinho, silenciado por gadgets, com polícia nos sindicatos (a rosa esmagada pelo punho tecnológico). Um país que teve quatro anos de estabilidade, com a sua população mentalizada e preparada para as mudanças necessárias, e em que pouco ou nada se fez, e em que instaurou um autoritarismo sem discussão.

Um país partido que se prepara para eleger os mesmos, para a estocada final.


Uma das maiores tristezas da minha vida é ser da área política do PS e nunca ter podido votar nele. Vou votar em qualquer coisa que não seja PS ou que possa estar próximo dele, e exorto todos os leitores deste blogue que pensem muito bem no que pode estar em causa. Nunca senti o meu país tão partido, e tão prestes a partir-se.

Nunca vi o meu país tão partido, que me desse tanta tristeza de ser português.

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

O PAÍS AO CONTRÁRIO

Estou de luto: o meu país está doido.

Alguma vez se concebeu a polémica que atravessa o país hoje? O que é isto, em qualquer país democrático?
Não percebo como é possível algum Governo, em alguma circunstância, mandar espiar a Presidência do país. Mais, como notava agora mesmo, na SIC-Notícias, Alfredo Barroso, como se concebe só passados 14 meses (os factos são de 23 de Abril de 2008), em plena campanha eleitoral, se discutir o assunto. Para já, é um erro do Presidente, notório: se as acusações podem ser comprovadas, deveria tê-las colocado ao Primeiro-Ministro, ao Parlamento, ao país, muito mais cedo. Não tão tarde, e em campanha, e sobretudo, por interposta pessoa.
Se o Presidente não teve nada a ver com a divulgação deste caso, hoje e agora, então deveria igualmente agir e com provas afirmar que o que se passa é um equívoco. Se é independente, deve zelar pela saúde mental do país - que neste momento está psicótico.
Como também não concebo, na SIC Notícias, que acabo de ver, uma leitura dos acontecimentos parcial. É útil ter um ex-chefe da Casa Civil do Presidente da República para analisar os factos, mas não o deixar tornar a leitura dos factos uma opinião sectária (acusando o Presidente de "perfídia") - por mais estranhos que sejam os factos. E sem provas.
Também não concebo como a Senhora, rodeada de assessores, não "conhece a notícia". Qualquer líder da oposição deve conhecer as notícias: fica-lhe bem, sim, a gravidade de sentir com o país e dizer-se em choque e incapaz de comentar seja o que fôr - coisa que não fez.
Em suma: não se percebe o que se passa. Ninguém com responsabilidades. sublinho, responsabilidades, fala neste país sobre o assunto. Elegemos quem e vamos eleger quem para manter este país impossível, esta veneza sem brilho e com assassinatos de carácter?
Estou de luto: o meu país não é nada, não se governa, desgoverna-se a si mesmo nas pessoas e sobretudo nos actos. O que sobra, o que sobra?

quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

LANÇAMENTO 333

No próximo dia 17 de Setembro, as 18h30, na FNAC Chiado, há uma sessão de apresentação do romance 333. É uma sessão LP, ou seja, Leitura & Perguntas. Venha com as suas questões: o livro está aberto para os seus leitores.

A COMPANHIA DO EU OFERECE CURSOS

A Companhia do Eu está a oferecer cursos. Todos os dados em www.companhiadoeu.com

NOTAS SOBRE AS ELEIÇÕES

O país vai a votos, e não se devia falar de outra coisa. Mas ainda há o sol, a gripe A, e milhares de outras coisas tão mais interessantes que isso. Não deixo de poder partilhar algumas notas sobre esta pré ou quase campanha que tem sido invulgarmente esclarecedora.
1. os debates
Não me lembro de nunca ter havido destes debates, tão igualitários entre líderes. De facto, para esclarecer ideias, não poderia haver melhor. E corrigem a imagem de trauliteirice que o Parlamento tem dado. Nem em Itália com o sr Berlusconi se ouvem coisas como - só de repescar este ano - se ouviram. Nos debates (como no excelente entre Portas e Jerónimo, ou no de hoje, entre Sócrates e Louçã) ficam tão claras as diferenças. Mostra uma vontade de esclarecer, trabalho sério dos candidatos, e falta de temor em ver todos os ângulos.
A senhora portou-se bem, embora muitas palavras caiam ao lado do que quer dizer, mas a atitude mostra mais do que a cabeça de cartaz que é para o partido - aliás, péssima. Manuela Ferreira Leite é a única candidata que não tem nada a perder com estes debates: todos sabem que é a que fala pior, que é a menos confrontativa, que é a menos tribuna de todos os outros, treinados por anos de Parlamento. Ganhará mesmo que roube uma loja, fazendo a analogia com uma frase de um jornal alemão ontem sobre Merkel.
Jerónimo também tem pouco a perder: sabe que ganhará pouco eleitorado, e que deve fixar-se na sua imagem e nos votos dos seus. Tudo se passa, portanto, no triângulo Portas-Louçã-Sócrates.
O debate de hoje, Sócrates-Louçã, vai ser decerto recordado com um dos debates mais memoráveis da democracia portuguesa. Sócrates foi baixo, com o programinha do adversário sublinhado e as reviravoltas de sentido que o caracterizam. Empola questões secundárias como se fossem cruzadas, e com tal sublinhamento, que é impossível a um adversário ficar frio. Louçã não se saiu mal, mas as questões das nacionalizações são tão embuscadas como a família-só-para-procriação da senhora. Louçã terá perdido votos neste dia, mas não para Sócrates. Os eleitores do BE que votam nele como força de protesto procurarão outras paragens. Eu, que votei BE ao longo de muito tempo, não me revejo no conflito e no discurso passados estes anos. Mas reconheço que melhor oposição que o triângulo Portas-Louçã-Jerónimo não há. Foram eles, com Moura Guedes, os morde-canelas de uma maioria absoluta desastrosa, faraónica, caterpillar e inútil.
2. o que está em causa
Mesmo com os debates, não se percebe o que cada um quer fazer com a crise. Fala-se das PME mas não se vê nada. Uma amiga, que dirige uma PME, contou-me há dias que ganhou um desses apoios mas precisava de gastar grande parte do apoio em comprar material: ora o problema é de tesouraria, não de material. Estes apoios são fechados, não têm em conta as necessidades reais das pessoas. O crédito é outro problema mal resolvido, ainda para mais com tantos apoios dados aos bancos. Tudo está fora da crise, como um senhor medieval que não vê as receitas chegar, e por isso manda prender os seus servos da gleba. Medieval, no pior: é isto a resposta do Governo à crise.
O apoio às indústrias culturais, que A Cara admitiu ser uma das suas falhas, está fora dos programas. Alguns editores contaram-me que este ano tiveram vendas, em dias determinados, na feira do livro, verdadeiramente espantosas. Isso quer dizer que as pessoas, em momentos de crise, perdem os hábitos de consumir-para-ver (telemóveis, carros de luxo, e por aí fora) e investem num livro, num filme, numa peça de teatro, num disco. Estas iniciativas, e outras de proximidade, devem ser apoiadas: geram bem-estar e consumo. Cada euro investido na cultura multiplica-se por dois ou por três. Ninguém percebe isto, ninguém fala disto. Por isso seremos sempre um dos países do mundo com uma das melhores e mais antigas literaturas, com agentes culturais esforçados e criativos, que vivem na míngua e voltados de costas para o país: porque não os apoiam, porque não os deixam gerar cultura e com isso, progresso.
3. o que poderá acontecer
Já disse aqui: BE e PCP não se quererão coligar ao PS, porque sabem, à maneira italiana e francesa, que isso será um suicídio. Ensaiarão e bem uma coligação muito particular e com as devidas mesuras na candidatura de Alegre à presidência, que ganhará decerto, sobretudo se o PSD ganhar estas eleições.
Se Sócrates perdeu já as eleições com o caso TVI, Manuela apagou muitas das suas hipóteses com as listas para deputados e a ida à Madeira (não custava nada ter dito uma frase, só uma frase, em vez de tantas desnecessárias...).
Manuela ganhará provavelmente por uma unha negra. Terão reparado na sondagem saída ontem no CM que colocava PS à frente: sondagem feita antes do caso Jornal de Sexta-Moura Guedes (faz lembrar as sondagens na noite das eleições europeias; o PS perdeu e as sondagens, feitas antes das eleições, davam-lhes a vitória...). Se tem Portas ou não, veremos. Mas o mais provável é uma eleição para dois anos, debilitada no Parlamento e por severa oposição interna.
Os executivos minoritários têm história agradável neste país. Uma maioria absoluta é uma poltrona com uma bananeira. Veremos se desta vez há maturidade para fazer o país progredir nas coisas essenciais para todos: investir todos os fundos possíveis na agricultura, e programá-la bem; criar boas ligações regionais de turismo, ligando hotelaria, restauração, autarquias, indústrias criativas, empresas de transportes; apoiar indústrias culturais regionalmente; aumentar os subsídios de desemprego;adiar remessas de IRC um pouco mais e emprestar às PME; criar um bom fundo de apoio a empresas em risco, subsidiando parte dos funcionários em risco, mas empenhando gestores (há tantos boys e girls que podiam ir fazer de missi dominici, como inventou Carlos Magno, enviados do senhor, como enviados do Estado para acompanhar a gestão). E sobretudo investir, não em estradas e disparates, mas no que o país faz melhor: na dinâmica de sobrevivência das pequenas coisas que nos fez fazer naus e descobrir caminhos quando nada se esperava.
Para além disto, a grande esperança: que esta gente, habituada agora a sentar-se em conjunto com estes debates, pense em dois ou três objectivos precisos para o país, e se ponha de acordo em consegui-los. Mas isso será mais difícil que voltar D. Sebastião.

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

O mar

Hoje eu fui a Bremen ver o mar.
O porto é grande, entre a neblina. Muitas grandes máquinas de ferro, que são como gigantes mortos ao pé do mar. Assustam-me desde que eu era menino. Talvez porque eu sempre fui um menino do campo. O mar me parece sempre um grande monstro ameaçador capaz de tudo. O mar em Portugal, por exemplo, é como uma namorada: bela e terrível, apaixonante e perigoso. Você sente que quer mergulhar mas quando entra não sabe nunca se vai sair.
Mas o mar em Bremen me pareceu mais escuro, mais distante. Não via o mar de Bremen há doze anos. Me parecia triste.
Talvez o mar precise que a gente tenha medo dele para existir.