tudo existe desde sempre: convive connosco, mas só é verdadeiramente para nós quando nos acontece. perco noites inteiras a pensar no magma inumerável de coisas que conheço mas que ainda não conheço, porque só vão ser para mim quando me acontecerem. tudo ocupa a sua órbita até desorbitar em nós.
assim com este concerto, que na minha primeira fase de amor à música achava longo, pesado, cheio de interrupções pensativas, quando eu queria da música exclamações, irrupções, a subjugação de uma paixão.

até ao dia de Outubro de 2004 em que me aconteceu a versão de Vladimir Horowitz com o Arturo Toscanini. Em 1943, num evento para recolha de fundos para o esforço da segunda guerra mundial, pianista e o seu sogro maestro gravaram o caminho mais próximo entre esta música e o fogo.
não é fácil chegar aos lugares interiores como se faz com os físicos: como chegar a uma pedra, a um quarto, a uma igreja, a uma praia, e dizer, «foi aqui», o lugar físico a concretizar a ferida interior. como apontar estes lugares, estes «sítios sitiados» como lhes chamava Luiza Neto Jorge. aqui caí, aqui comecei a morrer, aqui o meu corpo conheceu o seu corpo. a dor não pode dizê-los, os braços são sempre partidos para os desenhar, e mesmo as palavras atingem o pleno da sua explosão. para essa cartografia não existe nada senão o silêncio. tudo o que suba as escadas do silêncio, sem ar, a subir os degraus que o corpo desiste - só consegue chegar. como as descobertas marítimas: é aqui, onde e o quê não se sabe dizer, porque não há palavras para o novo que existe primeiro por dentro.
esta encenação magnífica, teatral e tronitruante no início do primeiro andamento, como se se celebrasse alguma coisa. mas logo depois o caminho é para dentro, para uma análise de pensamentos e actos como se fossem melodias. esta música não é música: é a depuração interior de um homem. por isso só são grandes as versões em que os intérpretes tocam com uma dor em diante e em frente, uma dor que os faça ver para além dos acordes, e os inflame do conhecimento da dor.
o segundo andamento só é verdadeiro na primeira melodia, suavíssima, que Tchaikovsky logo corta com umas variações que preparam o andamento seguinte, umas escadas de escalas. tudo aqui, nessa primeira versão, fala a língua directa de quem não sabe o nome das coisas mas sabe que foram ali, naquele espaço interior. é por isso que acredito na vida para além da morte: para onde vão todas as zonas silenciosas que cada um viveu consigo, que nos fizeram rasgar e desdobrar, que nada pode transmitir? é porque abrimos espaços depois dos pulmões, depois dos dias, depois do próprio corpo.
no final, no terceiro andamento, o que se passa é o fogo mesmo. a orquestra crepita, o piano excede-se a si mesmo, queima-se na orquestra, na melodia, e renasce a cada instante para ir ainda mais longe dentro do longe. só pode haver o grande crescendo do final porque alguém amou demasiado a terra das suas melodias de frio, porque sabia o nome a cada continente de sangue.
Ninguém conhece este concerto sem ouvir Horowitz com Toscanini (RCA ou Naxos, aliás aqui acoplado com um Concerto Nº2 de Brahms de aprender a respirar).
Mas vale a pe
na ouvir Gilels com Reiner (RCA), mais técnico mas não isento de grandes emoções e descobertas, ou mesmo Gilels com Mravinsky (Russian Disc). Richter com Mravinsky é fulgurante em fogo lento: uma grande orquestra russa para a anatomia de um desastre anterior. Martha Argerich com Dutoit (DG) ou Kondrashin (Philips) é um exercício de rapidez. Mas acredito que só se saboreia verdadeiramente cada uma destas outras versões depois de se queimar com Horowitz.
na ouvir Gilels com Reiner (RCA), mais técnico mas não isento de grandes emoções e descobertas, ou mesmo Gilels com Mravinsky (Russian Disc). Richter com Mravinsky é fulgurante em fogo lento: uma grande orquestra russa para a anatomia de um desastre anterior. Martha Argerich com Dutoit (DG) ou Kondrashin (Philips) é um exercício de rapidez. Mas acredito que só se saboreia verdadeiramente cada uma destas outras versões depois de se queimar com Horowitz. 
