Quinta-feira, 2 de Julho, 18h30-20h
Lisboa: Bertrand Colombo
Sessão de Autógrafos
Sexta-feira, 17 de Julho, 19h
Lisboa: FNAC Chiado
Sessão LP (Leitura & Perguntas)
Terça-feira, 30 de Junho de 2009
Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
hoje acordei com dores no futuro
do lado esquerdo do possível. uma vaga sensação de dor de cabeça entre o que podia ter sido e o que é.
alguma coisa me diz que esta dor vai ficar; é assim aos trinta, o corpo começa a ter hábitos, um esticão naquele joelho, a enxaqueca depois da ressaca. alguma coisa me diz que esta dor se semeou em mim, coisa que nasce na alma e porque é mais real que o real, estaciona-se no meu corpo, tem braços e queixas e manifestações. e cresce, cresce sobretudo quando não dou por isso, quando o lado esquerdo do possível morre um pouco mais. aí mergulha dentro de mim mesmo, expande-se, e aquilo que se via de frente para o futuro fica um pouco mais escuro.
não acredito em dores domesticadas: pertencem a quem quer sofás na alma. acredito em dores identificadas, olhos nos olhos, que andam connosco dentro do peito, uma cicatriz que abre tanto que um dia pode até trazer luz, sem esperarmos por isso. podem fazer muito por nós, e dentro dessa dor posso levantar-me, dar de beber ao mundo, compreender o coração que nunca terei.
são grandes espelhos, rasos como lâminas, e tão férteis que o sol dói quando se olham de dentro até ao futuro.
Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
AS COISAS QUE NOS ACONTECEM QUANDO TEMOS DORES NO PASSADO
Ontem, copo tardio no Peter's do Porto, beira-rio: conversas sobre almas, reencarnações, espíritos. Sempre vivi nisso, e agora mais, porque é o tema do meu próximo romance. Claro que se seguiu uma noite insone com a Segunda de Sibelius a tocar no Ipod, e cigarros à varanda a ver o Porto ser acordado pela luz.
Rua do Ateneu Comercial do Porto, 13h13. Andava ensonado à procura de uma loja, quando uma senhora, setenta anos puros nos olhos adolescentes, se aproximou. Aproveitei para lhe perguntar onde era o que eu procurava, ela lá me indicou com a luz abraçante que há no sotaque do Porto, e disse-me:
- O menino desculpe, mas não é da família do José Silvério?
Para além de prometer amor eterno a quem me chama "menino", fiquei tão atordoado que não percebi. Como estou habituado a que Sena-Lino dê Serafim, Rena Fino, Lena-Sino, Sereia Limbo, Senão-Limão, pensei logo que a senhora tinha conhecido o meu avô e se tinha enganado no nome.
- O José Silvério, de Faro.
Expliquei-lhe que tinha uma avó do Algarve, mas que o meu avô não tinha esse nome.
- Não, era Silvério mesmo. O menino desculpe, mas é tão parecido. Tão parecido. Tem a mesma cara, os mesmos gestos, até o sorriso é igual.
- Não sou, lamento.
- Olhe, desculpe lá, mas ainda ontem pensei nele. Fez ontem cinquenta anos que o vi pela última vez. E agora vi aqui o menino de um lado para o outro e estou a imaginar coisas. Mas tem mesmo a certeza?
Lá lhe contei a história da família, e até lhe disse que não podia ser, que o meu avô Sena-Lino teria quase cem anos se fosse vivo, e o meu pai era um pouco mais novo que a senhora.
- Deixe lá. Ele deixou-me para ir para o seminário. Depois acho que saiu, foi estudar letras para França e ficou lá a fazer uma tese sobre freiras. Ouvi dizer que escrevia poesia. Sabe, menino, a gente tem pena de perder assim as pessoas.
Dei-lhe dois beijinhos, desejei-lhe felicidades, tive vontade de dizer que estava para as curvas para encontrar outro Silvério, e voltei as costas: tendo a certeza que outro igual a mim, cinquenta anos antes, tinha vivido no coração daquela mulher.
PS - O contador do blogue, que se comporta fantasmaticamente porque não se vê por mais que tente, contou-me que atingimos esta semana 2000 leitores semanais. Acho que está mesmo enganado. Se não está, agradeço a tantos que por aqui passam.
Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
333 no Porto
na apresentação de 333 no Porto (excerto)
os livros são a primeira experiência de salvação. sim, a literatura salva, como disse uma vez Eduardo Prado Coelho: sentado nas tardes de Verão a devorar História, e a ser devorado por ela, percebi que todos os inícios estão por criar, e que existimos porque temos de criar os nossos inícios permanentemente. que o próprio facto de estar vivo é essa força de recriação do começo: as fórmulas, conhecemo-las: foi por isto que, ou eu nasci aqui. nascem tantas vezes de feridas, e por isso são apenas as feridas que escrevem; e ao situar esse lugar novo, esse início, sabemos sempre que é a partir de uma ferida, da energia que trouxemos ao mundo com essa mesma dor, que recomeçamos. e ao dizer: «eu vou nascer aqui», levamos o mundo connosco. é nos livros que bebemos que nunca mais paramos de nascer, em todas as direcções, por onde se atire o sangue e o sonho, por onde os nossos braços precisem de chegar e não tenham movimento para isso. num livro, dentro de um verso, de uma história, a nossa verdadeira medida de humanos, «medida desmesurada», se exprime.
e porque queria agradecer a capacidade de múltiplas salvações que cresci em tantos livros, que este livro, este 333, me escolheu. por isso vos quero falar de três triângulos. o primeiro, a sequência de números quer repercutir a sequência do três, a unidade de Deus, mas também a nossa unidade connosco: o que somos, a imagem que projectamos, o que seremos para lá. mas também quer este livro reproduzir todas as relações que se estabelecem entre humanos e livros. porque a energia que sustenta o livro é também um triângulo, o autor e o movimento em que corre e se esboroa na criação, e que pode ser o narrador ou não; a personagem; e o leitor.
quando este livro me pediu que o ajudasse a existir, todas as linhas da minha vida pareceram cruzar-se, como quando amamos alguém do fundo da nossa história, num clarão onde os dias perdidos, as noites esmagadas, as manhãs negadas e as tardes expulsas parecem unir-se num clarão, e justificar a nossa história até ao mais pequeno lugar dos nossos corpos.
Porto, 16-6-9
Sábado, 13 de Junho de 2009
A CARA, O GANAPERDE E O RAPTO
Passada uma semana, e rios de tinta sobre as eleições, junto-me a esse Tejo de expectativas, ou aos rios da Babilónia onde choram as harpas penduradas nos salgueiros.
1. A Cara
A Cara disse tudo. Era uma espécie de dor de barriga da autoridade, com o inchaço galopante de uma angústia. Era um vómito mas todo para dentro, aparentemente controlado, a rebentar a cada expressão.
Perdeu toda a autoridade. A cara sabia disso.
O que primeiro foi, no início dos quatro anos, determinação e programa, fazemos e pronto, tornou-se rapidamente autoritarismo, surdez ao outro, incapacidade. Isso acabaria por cair. O maravilhoso comício em Coimbra, todo Obamizado (segundo eles) revelou tudo isto: era ver A Cara, numa sala milimetricamente maquilhada, a desfazer-se em suor mais do que nas maratonas.
Depois a Ministra, essa entidade tão luso-anos-40, a entrar no Altis a vergastar os jornalistas como faz com os professores. Aquela imagem, aquele mover de braços, firme e impiedoso, gritou significados. E depois A Cara, inchaço de egos perdidos, a desfazer-se em directo e a ser incapaz de olhar para si própria. A Cara até podia ter salvo a cara, podia ter-se olhado ao espelho; mas a cara escolheu partir-se, perder-se.
Por isso proponho em referendo nacional que a partir de agora seja conhecido apenas como A Cara. Não houve imagem mais bela nestes quatro anos, não há na história de Portugal recente melhor exemplo para toda a destruição brilhante de uma construção falsa, sustentada em maquilhagem, agências de comunicação e vigilância sobre os media: A Cara são os painéis de são Vicente do século XXI Português.
2. Problema de poder, o poder é um problema?
O que mais me impressiona nestes momentos de fim de ciclo em Portugal é aperceber-me como os detentores do poder não sabem conviver com a democracia. Uma má democracia parlamentar na monarquia (culpa cada vez mais dos eleitos, não dos soberanos, como a História cada vez mais demonstra), uma república armada que morreu adolescente, como um daqueles soldados Liberianos, e o peso da ditadura, criaram um problema de imagem para os primeiros-ministros. Só conseguem sentir o lugar se agirem com uma autoridade que se torna atitude cega, desrespeitante da opinião do outro; se passarem da autoridade para o autoritarismo, em que a opinião alheia é um insulto e a discordância um delito.
Este foi o erro da Cara, como fora o erro de Cavaco, mas já bem no final. Embora Cavaco lidasse melhor com a opinião alheia.
O que me pergunto é o que haverá na ocupação deste cargo em Portugal, o exemplo do poder executivo, que cegue? Não me falem de Pombal nem de Salazar, quando não havia democracia. Falem-me na verdadeira incapacidade de se ser forte e dialogal, de se ser maduro, capaz de ouvir e decidir.
E quem for incapaz disto, está sempre sujeito ao mesmo destino: ser eleito porque é forte, reformador, e cai porque a sua autoridade é bacoca e falsa. Isto vai continuar a acontecer, e quem perde é o país.
3. O «ganaperde»
Quem ganhou, quem perdeu? Ganhou a esquerda (o PS não é esquerda há quatro anos, com a evidente excepção desassombrada de Ana Gomes e Manuel Alegre, e meia-dúzia de figuras), ou seja, ganharam CDU e BE. A CDU, porque viu o seu eleitorado manter-se e unir-se perante uma provocação da pior espécie, no 1º de Maio. Lutero nunca mais foi a uma missa católica, nem Calvino, porque a sua coerência interior era a única provocação possível: Vital não percebeu isso.
O que é evidente para o PS é que, como disse António Arnaut, o país quer ser governado à esquerda. O PS só governou à esquerda com Soares. Guterres era um social-cristão com suspiros sindicalistas, Sócrates quis ser mais Cavaco que o próprio Cavaco (sem reformas verdadeiras). Ou é agora que o PS entende que é à esquerda que deve governar, e de uma vez por todas inflectir verdadeiramente para chegar à sua raiz, ou as eleições estão perdidas.
O CDS ganhou; uma coisa que é evidente é que mesmo discordando da linguagem Portas, dos valores Portas, muita gente reconhece um trabalho de formiga em boa oposição. E ganhou contra o rasuramento em directo gratinado pelo micro-ondas do poder das sondagens.
E o PSD ganhou: e pelo menos agora, legitimada pelos votos, a Senhora tem capacidade de dizer ao que vem.
4. O futuro
Apostas desde já: o PS vai ganhar as eleições legislativas com 0,5% a 1% de diferença do PSD. Não se vai entender com ninguém: a CDU sabe que desaparece se entrar no poder, como todos os seus congéneres europeus que o fizeram (os franceses e os italianos); o BE sabe que rebenta internamente; com grande pena, porque teríamos pela primeira vez um governo verdadeiramente de esquerda neste país. E Sócrates vai desistir, e permitir à Senhora e a Portas coligar-se, com o eventual apoio de outros partidos, até novos.
Ou isto ou a senhora ganha ligeiramente à frente. Mas só conseguirá ganhar se fizer uma coisa nunca efectuada verdadeiramente em Portugal, que lhe permitirá resolver os seus problemas de imagem e comunicação, que é organizar um governo sombra que funcione; e que mostre, para os eleitores machistas deste país, que uma mulher pode pôr os barões na ordem.
5. O que verdadeiramente assusta
Assusta-me muito mais ser preciso relembrar: porque é que fizemos o 25 de Abril? Para nos expressarmos democraticamente.
A democracia não são as sondagens nem os opinion-makers os eleitores deste país. Parece que temos uma nova União Nacional, feita dessas duas cabeças no parlamento virtual das televisões. A democracia são as eleições, mesmo com abstenção, e mesmo europeias. Fossem dizer aos portugueses de 1973 que daí a trinta anos iríamos considerar uma eleição pouco importante, que garanto que quem o dissesse era linchado. Como é que deixámos isto acontecer, em nome de todos os anti-fascistas espancados e presos, em nome do meu pai, soldado na guerra colonial três anos, em nome de tantos silenciados? Como é possível deixarmos desvalorizar tanto uma eleição, uma expressão popular?
Nunca li, ouvi, tantas vezes, em tantos jornais, vituperar e esvaziar uma eleição de uma forma tão sistemática como esta. Ao ponto de uma cadeia de televisão ter feito uma sondagem, efectuada 3 dias antes das eleições, para colocar no ar depois das eleições europeias, dando a vitória ao partido do governo. Quando tinham falhado, quando as urnas falaram mais alto, o que queriam fazer com isto? Calar as urnas?
Mas o que é que se passa, que vírus, que cancro, que rapto da democracia se passa em Portugal em 2009, para deixarmos isto acontecer?
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
quotidiano interior #2
para onde é que morremos, em que direcção caem o sol e o sangue dos dias dados. os dias sangrados, pisados, consentidos, sem-sentidos. os dias dessensibilizados, os dias maiores que os dias, para onde, para onde caem? arde o sangue de tudo o que dei: tenho-o aqui, bem no centro do peito, para não me esquecer que sou uma bomba-relógio à espera do Big-Bang do meu corpo, para o cosmos morrer e se criar outra vez.
quando formos, para que direcção, perguntam as religiões. mas eu pergunto: o morrer hoje, o morrer que é o outro braço do corpo, o de todos os dias, essa economia de gestos ressuscitados, para onde é que segue? em morro para onde?
Toscanini, numa gravação de um ensaio da abertura "Coriolanus" de Beethoven, irritou-se eternamente e gritou à orquestra, no seu italiano de antigo testamento: «Give everything you have! I give everything I have!» Ele sabia para onde morria, para dentro da música, e que depois de desaparecer, seria uma sequência de sons, uma melodia de silêncios para dentro do grande tecido do tempo.
tenho a minha infância emoldurada à minha frente. uma pessoa de corpo a olhar para o futuro. mas é nos seus olhos que esta manhã eu olho, e me pergunta a mim, para onde morremos, para onde?
Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
nove meses de água e um cordão

na apresentação de 333 (Biblioteca Nacional de Portugal, 3-6-9, 18h33)
os livros são seres mais vivos do que os seres vivos: esmagam-nos contra a vida, tiram-nos de dentro a verdadeira água: aquela em que verdadeiramente continuamos a nascer. Santo Inácio dizia «o homem é criado», não «foi criado», e sei hoje com o coração que ele falava dessa água: porque se crescemos em silêncio, dentro do ventre da nossa mãe, por nove meses de água e um cordão, quando nascemos, o nosso crescimento só se mantém por essa mesma água, que ficou dentro de nós, inquieta e aguda, com um novo cordão: os livros.
se sou vivo, se sou criado continuamente, é porque o fui por livros e por música. e por isso, naquele Verão de 2008, quando lia Bomarzo, de Manuel Mujica Lainez, a ideia deste livro se imprimiu em mim, frente ao mar de S. Rafael, e se impôs definitivo. tentei perceber o que o livro queria de mim, e uma dessas ideias-força era tentar reproduzir todas as relações que acontecem entre humanos e livros, livros e humanos – como se pudesse escrever com e escrever o poder dos livros. porém ainda hoje estou certo de que não fui eu que o escrevi: mas essas vagas sucessivas, dos mares da cabeça e dos mares diante de mim, que foram compondo as histórias desta história. e ainda hoje estou certo de que este livro não fez grande eleição em escolher-me como seu autor.
acredito que escrever é uma missão: um escritor é aquele que ouve o silêncio na larga biografia das suas feridas, e nelas os livros escrevem-se. somos caixas de ressonância de outras vidas, de outros tecidos, de outros fios, captados nessa sensibilidade, e que apenas somos mãos desses livros, e depois pastores. o destino total de um livro é o seu leitor: é aí que ele se escreve verdadeiramente, e se imprime em vidas para gerar mais vidas.
também assim com a História, esse romance de fios múltiplos que escolheu povos de homens e homens de povos, mas também de espíritos tutelares, de anjos, fantasmas e seres em passagem entre os vários limites da luz, e onde jogamos a nossa novela de realidade, o nosso custo em batalhas. desde os sete anos que comecei a ler por causa da História. o meu pai ofereceu-me o primeiro volume de uma história ilustrada da Humanidade, uns volumes castanhos com uns desenhos lindíssimos, para dentro dos quais eu me perdia para me encontrar. deu-me o primeiro volume, que era na verdade o número três, “Egipto, As Origens”, num dia de Julho, e disse-me, com aquela sua capacidade sorridente de fazer pactos connosco: «Só te dou os outros se leres este até ao fim». lembro-me de encostar o livro à camisa vermelha às riscas, e de sob o olhar testemunhal do senhor do quiosque, prometer àquele livro que o leria como ninguém o leria. foi assim todo o Verão, quando em vez de fazer os trabalhos de férias, passava as tardes a lê-lo, do princípio ao fim, depois de novo, parando no meio, fascinado com as linhas que cruzavam destinos, ardiam seres, e desmontavam impérios.
tornei-me um verdadeiro chato. e por causa destes livros, o meu verdadeiro primeiro amor, andei à pancada pela única vez na minha vida. foi na terceira classe: o brigão da escola roubou-me o volume sobre a Revolução Francesa, com um murro. nesse gesto, e no volume que nunca mais recuperei, percebi tudo sobre a Revolução Francesa, sobretudo que ele não tinha percebido nada da Revolução Francesa. por acaso chamava-se Luís, e espero que não tenha perdido a cabeça.
quando este livro me pediu que o ajudasse a existir, todas as linhas da minha vida pareceram cruzar-se, como quando amamos alguém do fundo da nossa história, num clarão onde os dias perdidos, as noites esmagadas, as manhãs negadas e as tardes expulsas parecem unir-se num clarão, e justificar a nossa história até ao mais pequeno lugar dos nossos corpos.
nasceu de outra paixão, essa que devo a três mulheres: era também Verão, mas de 2007, quando comecei a trabalhar como investigador no projecto Portuguese Women Writers, dirigido por Teresa Almeida e Vanda Anastácio. durante ano e meio devastei os manuscritos desta biblioteca, a paciência dos seus funcionários e a esperança dos seus anjos tutelares, graças a esse projecto onde procuramos encontrar escritoras portuguesas entre 1500 e 1800. o ambiente cardíaco dessa investigação, os corredores, canais e veias de transmissão dessas águas represas, não perdidas, e o encontro com os livros e obras perdidas depois das vidas que lhes deram origem e também tantas vezes, quase morte, são a verdadeira energia deste livro, que humildemente quer homenagear as escritoras perdidas como a protagonista deste livro, Soror Flâmula. que não é real, nunca foi, ou talvez venha a ser porque os leitores lhe darão vida, mas que é fruto da minha paixão (desembocada em doutoramento tórrido) por Feliciana de Milão. quero agradecer-lhe por estar a tornar-se viva, depois de tantas mortes que lhe deram, e por poder vir a marcar tantos leitores daqui para a frente.
quero também agradecer a tantos - tantos, que teria de referir 333 pessoas. como têm um romance para ler, serei breve: a todos os amigos, que responderam com tal entusiasmo a este lançamento que foi mesmo necessário pedir a alguns que não viessem, por não cabermos aqui tantos; à Maria do Céu Guerra e Laura Soveral, que mudaram as suas vidas para estarem aqui a ler uma escritora imaginária de 1500, em mais um gesto que gerou vidas, porque se imprimiu em cada um de nós com a sua voz; ao Francisco Bélard, Beatriz Onofre e Susana António, membros do Grupo de Teatro da Nova, e à Adriana Aboim, que no meio dos exames e do seu espectáculo tiraram tardes para corporizarem este livro. ao Rui Zink, a quem devo mais do que posso dizer, desde há quase 333 anos, e que me ajudou e tanto na revisão deste livro. à inquebrantável equipa da Divisão Editorial Literária do Porto da Porto Editora, na Cláudia Gomes, sua directora, que abraçou com entusiasmo este livro e na verdade o imprimiu; ao Rui Couceiro, incansável na promoção; aos pacientes revisores que endireitaram esta sintaxe perdida entre manuscritos de freiras e poemas de um século que já não sei qual é, e procuraram contar todos os exemplares erdidos, para a lista que têm no final bater certo. Mas sobretudo, sobretudo, à Mónica Magalhães, que viveu todas as linhas deste livro como se fossem suas, e o imprimiu em todos os seus gestos e na sua infinita energia e dedicação.
a todos os meus alunos da Companhia do Eu, que continuam a confiar-me os seus sonhos por escrever: sem eles, eu teria deixado há muito de escrever. e também ao José Félix, à minha irmã Rita, ao Ludovic e à Marie-Nöelle, à Estela, à Filipa, ao Daniel Falb, e a Berlim, onde este livro foi tão escrito, e a outros tantos amigos que o leram na primeira versão e contribuiram com sugestões. à música que o escreveu comigo, a Sonata de Liszt, de uma maneira vertiginosa que senti que escrevia música neste livro. mas a alguém sem quem eu seria incapaz de escrever, porque lê cada página, ouve cada ideia, partilha cada momento, e que me leva sempre a nunca desistir, a procurar mais profundamente o significado de cada coisa que me acontece, e a levar a água de tudo isso para dentro destas páginas: ao meu amigo Alexandre Nave, com uma gratidão tão grande como se ele fosse quase co-autor deste livro.
nunca pensei escrever um romance. nunca pensei ser capaz de lutar contra as metáforas e conseguir ajudar a trazer esta história à sua vida final. foi na verdade uma batalha interior. é aí, nessas batalhas interiores, que tiro água das coisas, nessa guerra comigo mesmo. refazer-me a cada instante, porque o verdadeiro rosto vem de dentro: e ver emergir da batalha de nós, escrito, tantos outros rostos de tantas coisas que amámos demais para poderem ser, pessoas, lugares, livros, versos, linhas, ou outras coisas que são grandes demais para existirem em palavras, mas mais verdadeiras ainda. como termos sido salvos por um livro, no Verão infinito e largo dos sete anos, ou por uma mulher morta há trezentos e três anos, e dessa batalha tirarmos a água onde outros vão lavar a vida, e ser.
Casa de Mateus, 30-5-9
os livros são seres mais vivos do que os seres vivos: esmagam-nos contra a vida, tiram-nos de dentro a verdadeira água: aquela em que verdadeiramente continuamos a nascer. Santo Inácio dizia «o homem é criado», não «foi criado», e sei hoje com o coração que ele falava dessa água: porque se crescemos em silêncio, dentro do ventre da nossa mãe, por nove meses de água e um cordão, quando nascemos, o nosso crescimento só se mantém por essa mesma água, que ficou dentro de nós, inquieta e aguda, com um novo cordão: os livros.
se sou vivo, se sou criado continuamente, é porque o fui por livros e por música. e por isso, naquele Verão de 2008, quando lia Bomarzo, de Manuel Mujica Lainez, a ideia deste livro se imprimiu em mim, frente ao mar de S. Rafael, e se impôs definitivo. tentei perceber o que o livro queria de mim, e uma dessas ideias-força era tentar reproduzir todas as relações que acontecem entre humanos e livros, livros e humanos – como se pudesse escrever com e escrever o poder dos livros. porém ainda hoje estou certo de que não fui eu que o escrevi: mas essas vagas sucessivas, dos mares da cabeça e dos mares diante de mim, que foram compondo as histórias desta história. e ainda hoje estou certo de que este livro não fez grande eleição em escolher-me como seu autor.
acredito que escrever é uma missão: um escritor é aquele que ouve o silêncio na larga biografia das suas feridas, e nelas os livros escrevem-se. somos caixas de ressonância de outras vidas, de outros tecidos, de outros fios, captados nessa sensibilidade, e que apenas somos mãos desses livros, e depois pastores. o destino total de um livro é o seu leitor: é aí que ele se escreve verdadeiramente, e se imprime em vidas para gerar mais vidas.
também assim com a História, esse romance de fios múltiplos que escolheu povos de homens e homens de povos, mas também de espíritos tutelares, de anjos, fantasmas e seres em passagem entre os vários limites da luz, e onde jogamos a nossa novela de realidade, o nosso custo em batalhas. desde os sete anos que comecei a ler por causa da História. o meu pai ofereceu-me o primeiro volume de uma história ilustrada da Humanidade, uns volumes castanhos com uns desenhos lindíssimos, para dentro dos quais eu me perdia para me encontrar. deu-me o primeiro volume, que era na verdade o número três, “Egipto, As Origens”, num dia de Julho, e disse-me, com aquela sua capacidade sorridente de fazer pactos connosco: «Só te dou os outros se leres este até ao fim». lembro-me de encostar o livro à camisa vermelha às riscas, e de sob o olhar testemunhal do senhor do quiosque, prometer àquele livro que o leria como ninguém o leria. foi assim todo o Verão, quando em vez de fazer os trabalhos de férias, passava as tardes a lê-lo, do princípio ao fim, depois de novo, parando no meio, fascinado com as linhas que cruzavam destinos, ardiam seres, e desmontavam impérios.
tornei-me um verdadeiro chato. e por causa destes livros, o meu verdadeiro primeiro amor, andei à pancada pela única vez na minha vida. foi na terceira classe: o brigão da escola roubou-me o volume sobre a Revolução Francesa, com um murro. nesse gesto, e no volume que nunca mais recuperei, percebi tudo sobre a Revolução Francesa, sobretudo que ele não tinha percebido nada da Revolução Francesa. por acaso chamava-se Luís, e espero que não tenha perdido a cabeça.
quando este livro me pediu que o ajudasse a existir, todas as linhas da minha vida pareceram cruzar-se, como quando amamos alguém do fundo da nossa história, num clarão onde os dias perdidos, as noites esmagadas, as manhãs negadas e as tardes expulsas parecem unir-se num clarão, e justificar a nossa história até ao mais pequeno lugar dos nossos corpos.
nasceu de outra paixão, essa que devo a três mulheres: era também Verão, mas de 2007, quando comecei a trabalhar como investigador no projecto Portuguese Women Writers, dirigido por Teresa Almeida e Vanda Anastácio. durante ano e meio devastei os manuscritos desta biblioteca, a paciência dos seus funcionários e a esperança dos seus anjos tutelares, graças a esse projecto onde procuramos encontrar escritoras portuguesas entre 1500 e 1800. o ambiente cardíaco dessa investigação, os corredores, canais e veias de transmissão dessas águas represas, não perdidas, e o encontro com os livros e obras perdidas depois das vidas que lhes deram origem e também tantas vezes, quase morte, são a verdadeira energia deste livro, que humildemente quer homenagear as escritoras perdidas como a protagonista deste livro, Soror Flâmula. que não é real, nunca foi, ou talvez venha a ser porque os leitores lhe darão vida, mas que é fruto da minha paixão (desembocada em doutoramento tórrido) por Feliciana de Milão. quero agradecer-lhe por estar a tornar-se viva, depois de tantas mortes que lhe deram, e por poder vir a marcar tantos leitores daqui para a frente.
quero também agradecer a tantos - tantos, que teria de referir 333 pessoas. como têm um romance para ler, serei breve: a todos os amigos, que responderam com tal entusiasmo a este lançamento que foi mesmo necessário pedir a alguns que não viessem, por não cabermos aqui tantos; à Maria do Céu Guerra e Laura Soveral, que mudaram as suas vidas para estarem aqui a ler uma escritora imaginária de 1500, em mais um gesto que gerou vidas, porque se imprimiu em cada um de nós com a sua voz; ao Francisco Bélard, Beatriz Onofre e Susana António, membros do Grupo de Teatro da Nova, e à Adriana Aboim, que no meio dos exames e do seu espectáculo tiraram tardes para corporizarem este livro. ao Rui Zink, a quem devo mais do que posso dizer, desde há quase 333 anos, e que me ajudou e tanto na revisão deste livro. à inquebrantável equipa da Divisão Editorial Literária do Porto da Porto Editora, na Cláudia Gomes, sua directora, que abraçou com entusiasmo este livro e na verdade o imprimiu; ao Rui Couceiro, incansável na promoção; aos pacientes revisores que endireitaram esta sintaxe perdida entre manuscritos de freiras e poemas de um século que já não sei qual é, e procuraram contar todos os exemplares erdidos, para a lista que têm no final bater certo. Mas sobretudo, sobretudo, à Mónica Magalhães, que viveu todas as linhas deste livro como se fossem suas, e o imprimiu em todos os seus gestos e na sua infinita energia e dedicação.
a todos os meus alunos da Companhia do Eu, que continuam a confiar-me os seus sonhos por escrever: sem eles, eu teria deixado há muito de escrever. e também ao José Félix, à minha irmã Rita, ao Ludovic e à Marie-Nöelle, à Estela, à Filipa, ao Daniel Falb, e a Berlim, onde este livro foi tão escrito, e a outros tantos amigos que o leram na primeira versão e contribuiram com sugestões. à música que o escreveu comigo, a Sonata de Liszt, de uma maneira vertiginosa que senti que escrevia música neste livro. mas a alguém sem quem eu seria incapaz de escrever, porque lê cada página, ouve cada ideia, partilha cada momento, e que me leva sempre a nunca desistir, a procurar mais profundamente o significado de cada coisa que me acontece, e a levar a água de tudo isso para dentro destas páginas: ao meu amigo Alexandre Nave, com uma gratidão tão grande como se ele fosse quase co-autor deste livro.
nunca pensei escrever um romance. nunca pensei ser capaz de lutar contra as metáforas e conseguir ajudar a trazer esta história à sua vida final. foi na verdade uma batalha interior. é aí, nessas batalhas interiores, que tiro água das coisas, nessa guerra comigo mesmo. refazer-me a cada instante, porque o verdadeiro rosto vem de dentro: e ver emergir da batalha de nós, escrito, tantos outros rostos de tantas coisas que amámos demais para poderem ser, pessoas, lugares, livros, versos, linhas, ou outras coisas que são grandes demais para existirem em palavras, mas mais verdadeiras ainda. como termos sido salvos por um livro, no Verão infinito e largo dos sete anos, ou por uma mulher morta há trezentos e três anos, e dessa batalha tirarmos a água onde outros vão lavar a vida, e ser.
Casa de Mateus, 30-5-9
Terça-feira, 2 de Junho de 2009
quotidiano interior #1: da guerra comigo mesmo
em guerra comigo mesmo.
revitaliza a economia interior, anima os espíritos, reforça a paixão pela vida, liberta de pesos mortos interiores. e o meu próprio ser surge numa refrega interior, que alimenta os corpos perdidos de ócio.
não procuro a guerra comigo mesmo, acontece. e quando acontece, renasço. passo horas deitado no sofá, Bruckner a tocar ao fundo, vendo as nuvens, fumando obsessivamente ou levantando-me em discussão interior, tomando notas e perguntando a episódios o que significaram e quem fui eu aí.
o meu rosto vem de dentro. e por isso preciso de o ver, não com os dedos do hábito, mas com a reconfiguração perante a vida. quando a guerra acontece, eu ganho sempre.
revitaliza a economia interior, anima os espíritos, reforça a paixão pela vida, liberta de pesos mortos interiores. e o meu próprio ser surge numa refrega interior, que alimenta os corpos perdidos de ócio.
não procuro a guerra comigo mesmo, acontece. e quando acontece, renasço. passo horas deitado no sofá, Bruckner a tocar ao fundo, vendo as nuvens, fumando obsessivamente ou levantando-me em discussão interior, tomando notas e perguntando a episódios o que significaram e quem fui eu aí.
o meu rosto vem de dentro. e por isso preciso de o ver, não com os dedos do hábito, mas com a reconfiguração perante a vida. quando a guerra acontece, eu ganho sempre.
não existimos sem luta. o higienismo que governa seres e relações impede-o e sufoca-o. não crescemos senão com as feridas, com o mapear de mundos dentro de nós. Proust, Gide, Mann, dizem-no mais alto; e Shostakovich: «as minhas sinfonias são túmulos.»
diante de mim mesmo, pondo-me em causa desde a raiz, permitindo tudo, nasço para a vida outra vez.
o meu rosto vem de dentro: é meu, sou eu que o crio e invento, a cada golpe de real suportando por dentro.
porque o quotidiano que importa é interior.
Sábado, 23 de Maio de 2009
JUSTIÇA CÓMICA
No século XVII literário inglês, teve sucesso a figura da justiça cómica; segundo Wimsatt, «vícios inferiores e a loucura que os acompanhava eram castigados com desdenhoso ridículo». Temos em Portugal, anteriormente, uma tradição imbatível nos cancioneiros galaico-portugueses a partir deste filão.
O que não esperava o primeiro-ministro e o seu governo é que a justiça cómica se aplicasse neles, se voltasse contra eles, uma vingança cultural vinda directamente das mais fundas tradições portuguesas. Não porque o seu governo mostre «vícios inferiores», no mesmo sentido que à época vingavam. Mas porque, também graças à crise, o nosso sistema de valores está a ser corrigido, e já não consideramos «vícios inferiores» práticas particulares, mas atitudes públicas. Como a autoridade arrogante, ou a propaganda pura e simples num momento em que a crise dorme com todos os portugueses, dos ricos aos pobres - é uma das suas características e marca da sua seriedade, em termos de eficácia simbólica: é transversal.
O que se passou ontem com os alunos da Escola António Arroio é precisamente uma daquelas cenas que os adeptos da justiça cómica no século XVII adorariam: o primeiro-ministro e dois dos seus ministros mais emblemáticos, a irem inaugurar coisa nenhuma; verem o seu gesto destruído e devolvido ao seu verdadeiro valor de engano público, serem muito bem enxovalhados com adjectivação relativa mas rica em sound-byte simbólico, e a saírem pela porta pequena.
Já o episódio Maizena se voltara contra o feiticeiro, que pensava ter encontrado uma poção, perdão uma papa mágica para amenizar os efeitos de um cabeça de lista inquieto. A ironia saiu-lhe como o défice, galopante, e contra si mesmo, e fez a primeira cena de uma boa peça de justiça cómica: «castigado com desdenhoso ridículo» e até com uma campanha da referida papa a emergir da campanha propriamente dita. Nem em Roma (a Antiga, que esta nova também tem muito de justiça cómica: a queda de Berlusconi será pelo leito).
E depois, ó maravilha da justiça, até a Comissão Europeia a desfazer o Magalhães-que-deu-a-volta-ao-mundo-até-à-Venezuela, e a contestar esta medida tão estranha sem concurso.
Compatriotas, ânimo e coragem: o nosso primeiro-ministro vai cair com estrépito. Cada passo de propaganda vai custar-lhe o ridículo que o seu cuidado com a agenda e o marketing lhe impuseram. Vítima dos próprios actos, vai cair mais depressa que uma certa conta do PIB. E se há tradição de sátira política em Portugal, não vai haver tradição para uma queda tão monumental. «Castigado com desdenhoso ridículo»: fixemos: são palavras que se vão cumprir.
Segunda-feira, 18 de Maio de 2009
a luz ferida
um encontro entre dois seres é sempre o acontecimento, absoluto: em que se deixa de ser um ser, rodeado de silêncio por todos os lados, para se ser água, comunicação. quando surge, e quando partes do nosso rosto antigo e futuro se mostram no outro, a vida, com essa energia improvável, regressa com uma força que ocupa tudo.
e depois o encontro acontece, amanhece, é o sol de dias anoitecidos, e depois o encontro perde-se. tudo nos diz que se repita, tudo nos pede que aconteça, mas provocá-lo é o contrário de acontecê-lo. e ficam essas feridas de luz, derramadas dentro do coração, um jamais intocável mas real, que sangra de significado.
as feridas são o significado.
pensava em tudo isto quando reencontrei há dias, de raspão pela cidade dispersiviva, uma daquelas feridas que amamos demais por não se poderem repetir.
e já não é o rosto, já não é o ser, não mais a pessoa, a nossa, a do Outro: mas essa ferida, que se reactiva, que se torna real, e ainda mais simbólica. Cristo ressuscitou, e segundo a tradição, tinha as suas feridas nas mãos e no lado. porque são as feridas que trazem luz, não os encontros. porque a nossa biografia é tirar água da dor.
Segunda-feira, 11 de Maio de 2009
FESTIVAL DE POESIA

Ainda hesitei em colocar a informação aqui, mas cá segue.
Entre 14 e 16 de Maio tem lugar um festival em Lisboa, onde se lançará a colectânea Verschmuggel (Contrabando de Versos). É o resultado do Festival de Poesia de Berlim 2008, em que 5 poetas portugueses trabalharam em dupla com 5 poetas alemães, traduzindo-se. Vale a pena assistir, pela comunicação entre dois universos tão diferentes, e pela forma pensada e sustentada como os poetas alemães falam da poesia. Recomendo vivamente.
Domingo, 3 de Maio de 2009
A SENHORA
Rui Tavares tinha razão numa das suas últimas crónicas: vemos Manuela Ferreira Leite falar, e ficamos aflitos como se fôssemos nós. Cada pergunta, cada resposta, e ai meu Deus, os silêncios, que parecem grand canyons rasgados e definitivos em quase nenhuns milissegundos.
Não tenciono votar na senhora, nem que aconteça uma catástrofe (que já vai acontecendo, com este Governo, que será recordado como o governo de maioria absoluta que menos fez neste país; os Governos do PS têm sempre um menos diante de si: Guterres o supremo menos, o pior primeiro-ministro do século XX; o de Sócrates, o que menos fez quando tudo poderia ter feito; Soares sempre foi um mundo à parte).
Não tenciono votar na senhora, dizia. Mas reconheço-lhe uma qualidade rara, mesmo nos silêncios. Uma qualidade que o animal feroz nunca teve nem terá, e que a política em Portugal raras vezes teve: esta senhora é ela mesma, sem maquilhagem ou agências de comunicação, com as suas limitações e as suas convicções. Mesmo que choquem frequentemente com as minhas, reconheço-lhe uma inteireza que pouca gente tem, e que a aproxima de pessoas na frente da batalha em que nada lhes serve senão as suas convicções.
E acredito em espanto que com tantas interrogações e receios, isto estranhamente poderá até falar mais alto.
Uma coisa reconheço ao grande intérprete da Senhora (Pacheco Pereira): tem sido enredada em julgamentos sumários. Talvez se preocupe demasiado em dizer certo quando devia dizer o que pensa. Há dias, a propósito da questão da farinha Maizena (vê-se mesmo que os ministros nunca deram papa aos filhos, para saberem que Maizena não é Cerelac), a senhora falou sem papel nem notas, sem teleponto, e foi por ali fora com clareza e sem becos sem saída.
O facto de eu procurar lutar pela igualdade de género leva-me sinceramente a crer que, apenas por ser mulher, alguns custos estão associados a estes julgamentos rápidos. Uma das preocupações que já ouvi a várias pessoas (todos homens) é «ela não é capaz de pôr os homens do partido em ordem». Não há marca mais clara de um certo machismo julgador do que isto. É como aqueles melómanos que quando vêem a célebre maestrina francesa Équilbey dirigir, dizem: «Bonito, mas com pouca autoridade.»
O que devíamos estar a discutir, em vez do bloco central, em vez dos erros da Senhora (que toda a gente sob a luz quadricular da grade da exposição pública faz), é se como país estamos preparados para ter uma líder da oposição, e decorrentemente, uma candidata a primeira-ministra.
Em Bizâncio, paradoxalmente, as poucas mulheres Imperatrizes tiveram de marcar o início do reinado a golpes de sangue. Quase nada me liga à senhora em termos políticos. Mas quando afirma que «ninguém a ouve», eu oiço a Imperatriz Irene ou a Imperatriz Zoe a terem de se sentar sobre cadáveres para serem consideradas alguém. Será que é isto que o país precisa para reconhecer que a senhora afinal é «cá dos nossos», para esquecermos que é mulher, porque é homem a agir, e o pormenor feminino só se revelar secundariamente? E se sim, nunca sairemos de uma cultura menor, redutora, e pouco avançada em termos de mentalidades. Pior, muito pior, do que o casamento só-procriativo.
JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS
12 SINFONIAS
A QUARTA SINFONIA DE BRAHMS
decidir abandonar o próprio coração.
Reiner, com a Royal Philarmonic Orchestra (Chesky Records) é difícil de encontrar, mas pratica uma encenação rigorosa, cantante e quase superior de tudo isto: está do outro lado desta dor, quase superada, e prefere cantar em rigor e em grandiloquência precisa. para ouvir em noites brancas, quando já só há estilhaços.

Para cair bem nesta sinfonia, Furtwängler: circula uma quase integral, com o terrível Duploconcerto (Archipel) onde os crescendos e os contrastes são demasiado violentos para aguentar. Muitas vezes tive de parar a audição a meio, por inacreditável. Quem quiser beber esta sinfonia, não apenas a construção, não apenas a música, mas a mensagem de ferro interior que repercute, tem de ficar aqui, e arriscar jogar-se.
A QUARTA SINFONIA DE BRAHMS
decidir abandonar o próprio coração.
sem repouso, sem lugar. não há descanso na terra, não há nenhum lugar «onde possa reclinar a cabeça», como Cristo. tudo é demasiado tarde, tudo é demasiado breve.
nesta música, logo ao início, ouvem-se as vozes da luz, clarinetes e metais, e as cordas atiram-nos para baixo, como se o coração rojasse na pedra suja da terra, devolvendo-nos à nossa condição.
quantas paixões morri e subi nesta música, pessoas, ideias, e aquelas tantas outras coisas que não são nem pessoas nem ideias, e que nos ferem mais do que a própria vida.
não sei quem seria se não existisse esta música: se Brahms não tivesse tido a coragem de a escrever, e pusesse aqui o seu coração terreno inteiro. não sei bem o que para aqui atirou, mas acredito que sabia que ficaria aqui dentro, e com isso salvaria muitos de tantas prisões.
há ilusões de descanso, no primeiro andamento, mas logo perturbadas: como se se abrisse um espaço que é logo para se revelar a descer, íngreme e catástrofe como o amor intenso do que é breve.
e há uma espécie de promessa, que não se resolve no tremendo e crescente final, uma certeza de que só subiremos em tudo e de tudo se nascermos das feridas.
o segundo andamento parece uma procura: como se saíssemos de uma noite absolutamente escura, e entre a luz vaga da lua procurássemos o nosso próprio rosto na água, na pedra, e nas mãos, e ele fosse demasiado líquido para o podermos encontrar.
não consigo ouvir o terceiro andamento, o «allegro giocoso» senão como uma auto-ironia devastadora, como Mahler mais tarde saberá criar: uma piada com as próprias dores. não deixa de ser grandiloquente, mas é o mais pomposo e menos interior dos andamentos desta sinfonia. talvez porque mesmo na dor precisamos de sorrir ou de respirar.
no final, há uma apoteose, mas aquela apoteose de quem morre esmagando-se a si mesmo diante de todos os medos, na cara do destino. «dar de beber à dor», para que ela grite.
ninguém é inteiro, rasga bem fundo esta música, ninguém é inteiro se não andar dentro das próprias dores, se não for feito não de pele ou de actos, mas de feridas.
Reiner, com a Royal Philarmonic Orchestra (Chesky Records) é difícil de encontrar, mas pratica uma encenação rigorosa, cantante e quase superior de tudo isto: está do outro lado desta dor, quase superada, e prefere cantar em rigor e em grandiloquência precisa. para ouvir em noites brancas, quando já só há estilhaços.Klemperer (EMI), na integral que assinou, é eficaz e explicativo: grandes massas sonoras, um efeito avassalador, mas pouco pathos.
Para alguma luz nesta Sinfonia, é bom ouvir Carlos Kleiber, mas há uma precisão e uma leitura sublinhadamente em direcção à resolução, e para mim esta Sinfonia é a irresolução, é um drama pessoal e interior jogado até ao fim, e por isso, sem fim.
Toscanini joga no mesmo campo (RCA), mas há um esplendor sonoro onde por vezes parece ouvir algum do drama italiano onde ele cresceu como intérprete. Haitink (Philips), numa integral perfeita sem pathos, está fora nesta sinfonia, sem manter a chama a maior parte do tempo.

Hermann Abendroth (Berlin Classics), um maestro pouco conhecido, é capaz de uma assertividade delirante. O jogo aqui é todo sustentado nas cordas, que rangem e rasgam como a alma de um navio.
Para cair bem nesta sinfonia, Furtwängler: circula uma quase integral, com o terrível Duploconcerto (Archipel) onde os crescendos e os contrastes são demasiado violentos para aguentar. Muitas vezes tive de parar a audição a meio, por inacreditável. Quem quiser beber esta sinfonia, não apenas a construção, não apenas a música, mas a mensagem de ferro interior que repercute, tem de ficar aqui, e arriscar jogar-se.Sexta-feira, 1 de Maio de 2009
JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS
A minha integral das Sinfonias de Beethoven
Szell (BBC Artists), como referia no post da Oitava Sinfonia, é uma audição a fazer seguida da Oitava. O maestro que preferia versões luminosas e não abusava dos contrastes e do pathos, faz rebentar aqui uma energia perfeita, numa das gravações mais equilibradas. Mas, para mim, não é ainda a potência agógica que a Nona fala.
Mas temos as várias versões de Furtwängler, e aqui demasiadas coisas se passam. Sófocles, a música concreta, o peso da morte no nosso corpo acabado de partir, Nietzsche, Buda, Pã, Cristo.
A NONA
Achei muitos anos que o mundo acabava aqui. Ou começava. Que a Nona Sinfonia de Beethoven era o que Vasco da Gama via desde o poema de Camões, a "grande máquina do mundo". Que nesta música alguém se levantava para nunca mais voltar a ser o mesmo, mas sempre outra coisa em movimento, imparável de interior.
Um tempo mais tarde, a subir num velho Renault ao Curral das Freiras na Madeira, entre esforços de brumas, enquanto a música corria, água inigualável, achei que esta música criava o mundo. Santo Inácio de Loyola diz que «o homem é criado», não foi, continua a sê-lo, num dinamismo infinito de criação desde o primeiro ao último dia. Esta música é essa energia, fonte onde ouvir é renascer.
E depois achei que o mundo tinha sido criado por causa da Nona Sinfonia: para que cada homem a pudesse ouvir e com isso receber a plena noção da sua humanidade.
Cada vez que oiço falar nas votações para as Maravilhas do Mundo, acho injusto e vazio que não esteja lá a Nona Sinfonia, que há de soar mais eterna a contar a história destes seres minúsculos e excessivos de alma que num certo tempo viveram neste canto do Universo chamado Terra - quando da nossa passagem física não sobrar senão uma partícula de pó e ventos.
É no primeiro andamento (Allegro ma non troppo) que tudo isto se joga e se pergunta. A respiração de Deus sobre as águas.
Depois vem toda a história do mundo. O segundo andamento, Molto Vivace, conta milénios de ideias, de batalhas, de descobertas solitárias, e de uma certa mulher perdida no meio de Sófocles ou gritando surda nas Escrituras. Tudo isso volta a ser nesta música, «tudo ressuscitado» como no poema de Cesário Verde.
Cortem-me o ouvido direito, mas o Adagio, terceiro andamento, é bonito demais para se poder aguentar. Por isso passo-o frequentemente à frente, depois dos quinze ou dezasseis anos em que passava o dia dentro dele. Colou-se de tal forma à pele da minha alma que é como se me ouvisse a mim, e eu não pudesse querer ver-me mais.
O último e célebre andamento conta-me sempre a história de como a genialidade anda dentro da simplicidade, quase perto demais da estupidez. Lembro-me no Immortal Beloved, um filme nem bom nem mau sobre Beethoven mas com um excelente Gary Oldman, como diziam do velho compositor estar completamente louco por andar pela casa a cantar uma música ridícula e infantil.
E depois a energia, a alegria revivificada, que nasce dentro de alguém que sai deste andamento.
***
Não aguento versões da Nona Sinfonia que não me empolguem desde logo. Frequento muitas versões, mesmo menos boas, de outras Sinfonias, mas aqui não consigo. A partir daqui até Brahms, Bruckner, Mahler, o meu sentido crítico aguça-se excessivamente, talvez porque oiça com mais do que os ouvidos críticos.
E por isso não posso partilhar demasiadas versões.
Digo que ninguém conhece a Nona se não ouvir o último andamento na versão de Ferenc Fricsay (DG), onde há uma secura que parece estar revelar o momento em que esta música
foi acabada de inventar, ainda com a pauta manchada pela alma.
foi acabada de inventar, ainda com a pauta manchada pela alma.Toscanini, com a sua NBC Symphony Orchestra (uma orquestra criada especificamente para ele) em 1939, gravação da Naxos: há uma agressividade que arranca esta página do centro do Universo. É espantoso como através desta versão esta música nos parece moderna, e ao mesmo tempo tão profundamente biográfica, como se dialogasse com uma dor ou uma alegria que seja o nosso coração. Isto dirigido por um maestro que dizia, para que toda a gente o ouvisse, que sentia nunca ter completamente compreendido esta música.
Klemperer (EMI ou Testament) é mineral, mas as oscilações de tempo, que o caracterizam, não deixam aqui respirar a violência do mármore que é a marca de água das suas versões. Mas qualquer coisa de muito profundo respira aqui.
Norrington (Virgin), em instrumentos originais, reviu os tempos metronómicos, e a experiência é a de estar na estreia da Sinfonia, no dia 7 de Maio de 1824 em Viena. Os tímbales parecem relâmpagos, respira-se a Ideia.
Carlos Kleiber não gravou a Nona, pelo menos que se saiba, e eu penso muitas vezes que há coisas no mundo que são concentrações demasiadas de energia - como isso, se tivesse acontecido.
Szell (BBC Artists), como referia no post da Oitava Sinfonia, é uma audição a fazer seguida da Oitava. O maestro que preferia versões luminosas e não abusava dos contrastes e do pathos, faz rebentar aqui uma energia perfeita, numa das gravações mais equilibradas. Mas, para mim, não é ainda a potência agógica que a Nona fala.
Mas temos as várias versões de Furtwängler, e aqui demasiadas coisas se passam. Sófocles, a música concreta, o peso da morte no nosso corpo acabado de partir, Nietzsche, Buda, Pã, Cristo.A versão da EMI, que reproduz o concerto que reabriu Bayreuth depois da Segunda Guerra Mundial, com a voz de Schwarzkopf que parece ter estado sempre nesta Sinfonia, desde a cabeça de Beethoven, é inultrapassável. Prefiro porém as novas gravações, com som quase stereo, como a da Orfeo, ou sobretudo a que foi gravada em Lucerna em 1954, e disponível na Tahra. Aqui o mundo começa, ou eu sou recriado.
Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
AUTOBIOGRAFIA SONEGADA À INSÓNIA #5
todas as coisas se partem
sempre fui muito dado a partir. no Alentejo dizem que é ter "mãos de Domingo". no meu caso é mais como dizem no Norte, sou "palonso", desajeitado. talvez por isso goste de encostar o coração a tantas coisas que partem, antes para aprender a quebra, agora para aprender a duração, a resistência [acho que só cá andamos para aprender a pensar com o coração].
um dia a pessoa que mais amei no mundo partiu. mas antes disso prometemos um ao outro que ela iria ao outro lado, esse outro lado de que tanto esperava e tanta imaginação e saudade lhe rasgava no peito - como se o tivesse conhecido e tivesse a consciência da ferida. Que ela iria ao outro lado e me viria cá contar como era. o que partir primeiro, vem ter com o outro.
e a partir daí, quando ela partiu, não houve momento importante na minha vida em que, no cume mais alto de sentir a sua ausência, ou quando muitos estávamos reunidos com o pensamento doído dela, alguma coisa sempre se partia. como se alguém passasse em luz, uma luz sonora e invisível, e a sua passagem quebrasse o vidro dos nossos próprios olhos. o que partir primeiro...
estou hoje mais cuidadoso: ponho os copos no centro da mesa, seguro tudo com as duas mãos (e por isso parto o coração mais depressa), divirto-me com o malabarismo de segurar as coisas. nem por isso ela deixa de vir, em momentos precisos. como ontem. quando precisamente sentia uma estranha, habitada, mas seca solidão, de um caminho áspero demais para duas mãos. para me lembrar que tudo o que (se) parte é um caminho.
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